Especialistas alertam sobre acordo do ‘Mar Vermelho’ com mediação de Trump na GERD

Uma nova proposta dos Estados Unidos para mediar a disputa em torno do rio Nilo recebeu apoio imediato do Egito e do Sudão. No entanto, a falta de resposta da Etiópia evidencia o impasse que já dura muitos anos e que está cada vez mais ligado a rivalidades na região do Chifre da África.
Essa não é a primeira vez que a administração americana tenta intervir na situação do Grande Projeto Hidrelétrico da Etiópia (GERD). Durante o governo anterior, foram realizadas negociações em Washington entre Egito, Etiópia e Sudão, mas não houve um acordo. Naquela ocasião, o ex-presidente sugeriu que o Egito poderia “destruir a represa”.
Na noite de sexta-feira, o atual presidente dos EUA reafirmou essa ideia, em uma carta ao presidente egípcio Abdel Fattah El-Sisi. Ele destacou que resolver as tensões em torno da represa é uma de suas prioridades, expressando desejo de que a situação não evolua para um conflito militar entre o Egito e a Etiópia. Trump enfatizou que nenhum país da região deve controlar unilateralmente os recursos do Nilo de forma a prejudicar seus vizinhos.
O presidente americano mencionou que, com a expertise técnica adequada, negociações justas e um papel forte dos EUA na coordenação entre as partes, seria possível chegar a um acordo que beneficiasse todos os países da bacia do Nilo. Ele ressaltou a necessidade de garantir a liberação de volumes de água previsíveis durante períodos de seca para o Egito e o Sudão, ao mesmo tempo que permitiria à Etiópia gerar uma grande quantidade de eletricidade, parte da qual poderia ser vendida ao Egito e ao Sudão.
Em resposta, El-Sisi expressou seu apoio à iniciativa americana em uma postagem em sua conta no Facebook, saudando os esforços do presidente Trump para promover a paz na região. Ele destacou a importância do Nilo para o povo egípcio, descrevendo-o como “a linha de vida do povo egípcio”. O presidente egípcio reiterou que a cooperação com os países da bacia do Nilo deve se basear em princípios de direito internacional, visando interesses comuns sem causar dano a nenhum dos envolvidos.
O ministro das Relações Exteriores do Egito, Badr Abdelatty, também comentou sobre a questão, afirmando que o país busca uma cooperação séria com as nações da bacia do Nilo, respeitando os princípios de notificação prévia e a obrigação de não causar danos. Ele mencionou que a bacia do Nilo recebe cerca de 1,6 trilhões de metros cúbicos de chuvas anualmente, totalizando aproximadamente 7 trilhões de metros cúbicos quando se incluem países como a República Democrática do Congo, sugerindo que uma melhor coordenação regional poderia ajudar a aliviar as pressões sobre a água.
No lado sudanês, o chefe do Conselho Soberano, Abdel Fattah Al-Burhan, também acolheu a iniciativa dos EUA, expressando apoio via redes sociais, destacando que a proposta pode levar a soluções sustentáveis que respeitem os direitos de todos e mantenham a segurança e a estabilidade da região.
Até o momento, a Etiópia não se manifestou oficialmente sobre a iniciativa dos EUA. O primeiro-ministro Abiy Ahmed, no entanto, fez uma postagem sobre inaugurações de projetos no sul do país, mas não abordou diretamente a proposta de mediação.
Nos últimos dias, o ex-presidente Trump tem falado frequentemente sobre a situação da represa. Em março de 2025, fez referência à resolução do problema como uma urgência, destacando os riscos que a construção representa para o Egito. A nova tentativa de mediação ocorre em um contexto de aumento das tensões no Mar Vermelho, especialmente após o reconhecimento de Somaliland por parte de Israel, um território que já havia assinado um acordo com a Etiópia.
A situação é complexa, e especialistas apontam que a proposta dos EUA pode não resolver a crise se a Etiópia não demonstrar um compromisso político forte. Anteriormente, Egito, Etiópia e Sudão negociaram com a supervisão do Departamento do Tesouro dos EUA e do Banco Mundial, resultando em um acordo em 2020 que o Egito assinou, enquanto a Etiópia se retirou.
Os analistas ressaltam que a falta de um posicionamento da Etiópia pode levar a nova fase de estagnação nas negociações. A segurança hídrica é uma questão central, especialmente para o Egito, que enfrenta um déficit crônico de água. Com necessidade de aproximadamente 114 bilhões de metros cúbicos de água anualmente e recursos disponíveis muito abaixo desse valor, o Egito reafirma que não pode abrir mão de sua cota de água.
Em recentes declarações, autoridades egípcias reafirmaram que não hesitarão em empregar todos os meios disponíveis para proteger seus interesses hídricos. O alerta é importante, pois a situação pode desencadear consequências sérias em um contexto de segurança regional cada vez mais tenso, refletindo a necessidade de um compromisso efetivo de todos os países envolvidos para alcançar um acordo duradouro sobre o uso dos recursos hídricos do Nilo.




